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  • Por: Gustavo Lopes
  • Publicado em: 27 de outubro de 2020

Rabiscos nostálgicos

JOGO DE ROLL AND WRITE COMBINA BOA COMPLEXIDADE COM NOSTÁLGIA DO RPG OLD SCHOOL

Os jogos de roll and write, ou rolar ou escrever, e suas variações como virar cartas e escrever ou até mesmo recentemente petelecar e escrever (como o caso do jogo Sonora), caíram no gosto do público e cada vez mais títulos com essa mecânica estão sendo lançados no mercado nacional e internacional. Não é a toa que um jogo brasileiro do gênero, Cartógrafos, concorreu ao Kennerspiel des Jahres, uma das maiores premiações do mundo dos jogos de tabuleiro.

Se os jogos de tabuleiro trazem um sabor analógico para um mundo digital, os jogos de rolar e escrever tem um tempero extra, nos remetendo a tempos mais nostálgicos dos livros de desenhar e colorir, ou aquelas revistinhas de ligar pontos e no fim formar uma figura que você não imaginava o que seria.

Ainda falando em nostalgia, para muitos dos nascidos como eu entre os anos oitenta e noventa, o advento e a popularização dos jogos de RPG, seja de forma analógica como o caso de Dungeons & Dragons, ou digital, nos videogames e nos jogos de computador, foi um grande marco. Explorar masmorras, juntar itens mágicos e enfrentar monstros representados por meros ícones em gráficos 8-bits era uma atividade épica e extremamente prazerosa, muito antes dos gráficos realistas e resoluções 4K.

E é com todo esse sentimento, juntando a sensação que os jogos de roll and write trazem com a nostalgia do RPG que começo a falar de Paper Dungeons.

Roll and write de exploração

Caso você não conheça o jogo, recomendo que leia este texto aqui do blog. Nele você vai encontrar um apanhado geral das mecânicas e sistemas. Apenas para contextualizar, Paper Dungeons, como o nome já diz em sua tradução, são masmorras de papel para você explorar com seu objeto de escrever favorito. Dados são rolados para dar opções aos jogadores de evoluir seus personagens, coletar itens, poções ou andar por masmorras que mudam de acordo com a carta de masmorra escolhida.

A grande sacada do Paper Dungeons é que a folha de jogador e a experiência de explorar a masmorra numa folha de papel traz uma nova abordagem a aventura de um RPG. Cada carta de masmorra modifica a preparação da partida, mas não apenas isso. As cartas sorteadas de objetivo pessoal, os objetivos comuns e as classes selecionadas para cada jogador fazem com que cada partida seja uma nova experiência, porém mantendo uma jogabilidade consistente.

A arte do jogo, especialmente a iconografia, funciona para facilitar o entendimento das regras e ajudar os jogadores nos diferentes gatilhos disparados por cada ação, além de representar muito bem o tema. Para jogadores como eu, a masmorra cheia de quadradinhos e os ícones representando os lacaios me fazem lembrar de diversos jogos de PC que joguei durante minha infância e adolescência. As cartas com os vilões parecem ter sido tiradas de batalhas desses jogos em que você só podia ver o menu e o desenho pixelado dos chefões que pipocava na tela quando começava a pancadaria, porém aqui, no Paper Dungeons, os pixels são substituídos por uma arte que remete a ilustrações que você encontrava em manuais desses jogos, mas com um toque moderno para agradar gregos e troianos.

Veredito

A folha de jogador pode parecer um pouco intimidadora em um primeiro momento, com seus inúmeros espaços em branco esperando serem preenchidos, mas não se engane. Uma partida é suficiente para fixar a linguagem do jogo e como eles funcionam perfeitamente em harmonia. Além disso, estrategicamente falando, diversos caminhos podem levar a uma mesma pontuação, o que mostra um trabalho excelente de equilíbrio entre as possibilidades apresentadas no jogo. Uma única carta de masmorra pode entregar partidas totalmente diferentes, pois há elementos suficientes no jogo para trazer uma boa rejogabilidade e variação de partida para partida.

Paper Dungeons é um roll and write de média complexidade excelente e nostálgico, para agradar tanto os jogadores casuais que podem ser atraídos pelo tema, quanto aos jogadores mais exigentes, pelas mecânicas e sistemas consistentes. A sinergia entre tema e mecânica faz uma grande diferença para esse jogo de rolar a escrever se destacar entre os jogos do gênero, e sem dúvida é mais um título que afirma o design nacional dentro do mercado de jogos de tabuleiro.

Gustavo Lopes

Roteirista, editor e apresentador do podcast Gambiarra Board Games, postador de fotos no instagram @gambiarraboardgames, mas antes de tudo, apreciador de jogos de tabuleiro. Começou nos ameritrashes e cooperativos, passou pela fase dos fillers e dos party games e, apesar de ainda jogar tudo isso sem hesitar, segue no rumo dos euros pesados em busca de maiores dores de cabeça.

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