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  • Por: Márcio Botelho
  • Publicado em: 21 de julho de 2021

Um jogo cheio de história

Orléans, título que está voltando ao catálogo da MeepleBR, tem como pano de fundo a França durante a Idade Média. Esse período histórico desperta a atenção de muitos entusiastas, o que podemos ver através do grande número de filmes, livros, séries de TV’s e claro jogos que se passam na Europa entre os séculos V e XV.

Mas será que a criação de Reiner Stockhausen é fiel ao período ou ela se distância da história europeia?

Para responder essa pergunta, vamos voltar um pouco ao tempo da cavalaria e dos castelos.

A Baixa Idade Média

Vou te lembrar de algumas coisas que você aprendeu nas aulas de história da escola. Eu sei que talvez você achasse essas aulas meio chatas, mas para entender como Orléans retrata a Idade Média, preciso que algumas coisas estejam claras na sua memória.

Primeiramente é bom recordar que esse foi um período bastante longo da história do Ocidente europeu, tendo durado praticamente 10 séculos e compreendendo uma enorme variedade de povos, costumes e línguas. Sendo assim, é bom que fique claro que muitas das afirmações que você lerá aqui são generalizações e que não se aplicam a todos os lugares e momentos desse período histórico.

Usualmente os historiadores dividem a Idade Média europeia em dois períodos: Alta Idade Média (que vai do século V ao X e é caracterizado pela formação da sociedade feudal) e Baixa Idade Média (séculos X a XV e que marca o auge e declínio do feudalismo). Orlénas se passa na Baixa Idade Média e isso fica claro devido a presença da burguesia.

A burguesia medieval

Na baixa Idade Média houve o que ficou conhecido como Renascimento Comercial e Urbano. Devido a alguns fatores ambientais, econômicos e sociais houve um forte crescimento demográfico, fenômeno que gerou um êxodo rural significativo e fez com que muitos fazendeiros abandonassem os campos e fossem para as cidades. O crescimento das cidades levou ao fortalecimento do artesanato e das atividades comerciais.

No contexto medieval burgueses eram os habitantes dos burgos, outro nome dado às cidades, e que se dedicavam principalmente ao comércio e ao artesanato. Com o aumento da circulação de bens e mercadorias, e por conseguinte do dinheiro, surgem os primeiros bancos que vão tratar de emitir cartas de crédito, fazer trocas de moedas e até mesmo empréstimos.

Sendo assim, fica fácil entender porque artesãos, comerciantes e banqueiros passam a ser conhecidos genericamente como burgueses, um novo grupo social que será responsável por muitas transformações sociais no decorrer da história ocidental.

O ar da cidade te liberta

Na Alemanha da Idade Média existia um ditado muito famoso que dizia “stadtluft macht frei”, ou em bom português “o ar da cidade te liberta”. Essa expressão é simples e aponta para um dado muito curioso: o ambiente urbano na qual viviam os burgueses era mais livre e desafiava a sociedade da época.

Nas cidades surgiram as primeiras universidades, inicialmente ligadas a filosofia escolástica da Igreja Católica, mas nela não apenas os religiosos podiam ter acesso aos estudos do trivium ou do quadrivium. Eruditos leigos, ou seja que não eram parte do clero, contribuíram para o desenvolvimento das artes e da filosofia e começavam a quebrar o monopólio da Igreja em relação ao conhecimento.

Tensões na Idade Média

O surgimento de uma nova classe social, a burguesia, não seria vista sem nenhuma reação por parte daqueles que detinham o poder e os privilégios do mundo medieval.

A nobreza, os donos de terras e senhores da guerra, ainda mantinham o poder político sobre amplos territórios e usavam seus cavaleiros e soldados como uma eficiente força militar. Curiosamente a vocação militar dos nobres os levará a um progressivo enfraquecimento ao final da Idade Média: as guerras e disputas farão com que percam poder enquanto os monarcas concentrarão a autoridade política e militar em seus domínios.

O clero medieval se indispunha constantemente com a burguesia. Isso se explica devido ao fato de que essa nova classe social não se encaixava no ordenamento que a Igreja Católica defendia desde o principio da Idade Média. Para os religiosos a base da sociedade eram os camponeses, que se submetiam aos nobres e que por sua vez obedeciam à autoridade do clero.

Nesse universo a burguesia, e suas ascensão ligada ao comércio e não a posse de terras ou a fé, desafiavam a autoridade da Igreja e de seus representantes. Muitas vezes as práticas burguesas, como os empréstimos a juros, eram vistas como pecaminosas e até mesmo recriminadas.

Mesmo com a ascensão da burguesia os membros da Igreja, como monges, padres e bispos, mantinham grande prestígio e respeito perante os olhos da sociedade.

A Idade Média em Orléans

Orléans apresenta diversos grupos que compunham a sociedade da Baixa Idade Média de forma bastante interessante e desempenhando ações que estão intimamente ligadas as funções que desempenhavam no período, bem como aos locais que frequentavam. O fato de os monges serem uma espécie de curinga, sendo capazes de substituir qualquer trabalhador, indica a questão da maior autoridade do clero católico no período.

Além disso, houve um cuidado muito grande por parte dos artistas de desenvolver uma iconografia fortemente relacionada com o estilo artístico visto em livros e pinturas do período, o que ajuda a criar uma experiência interessante para aqueles que tem curiosidade sobre o período medieval.

Caso o jogo lhe desperte mais interesse pela Idade Média, recomendo para você alguns textos interessantes para aprender mais sobre a rica história do período: Idade Média, Idade dos homens (coleção de textos do historiador francês Georges Duby e que fala do cotidiano e imaginário da Idade Média); O outono da Idade Média (clássico de Johan Huizinga que aborda a Baixa Idade Média e a transição para a Época Moderna); O nascimento do purgatório (obra de Jacques LeGoff sobre as tensões entre o clero e a nascente burguesia); A feiticeira (texto um pouco datado de Jules Michele no qual o historiador francês retrata o imaginário sobre a mulher e a questão da religiosidade popular).

Márcio Botelho

Raça: Humano. Alinhamento: caótico e bom. Classes: Historiador 6, Crítico literário 4 e Nerd 10. Pensando em mais uns 15 livros que mereciam entrar nessa lista.

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