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  • Por: Márcio Botelho
  • Publicado em: 1 de setembro de 2020

Entrevista – Eric Deshoulieres

No mês de agosto houve intensa discussão nos fóruns de fãs de board games no Brasil, em especial na Ludopedia, a respeito da versão nacional do jogo Maracaibo.

Alguns consumidores perceberam um erro de impressão em uma das cartas do jogo, bem como dificuldades para destacar componentes das punch boards, as placas de papelão nas quais estão as moedas, tiles e outras peças do jogo.

No dia 14/08 a MeepleBR soltou uma nota oficial na qual admitiu a responsabilidade pelo ocorrido, se comprometeu a fazer a reposição da carta impressa com defeito, bem como de todos os componentes que apresentassem problemas de fabricação.

Já na segunda quinzena do mês, no dia 28/08, foi feito novo comunicado, informando sobre o status da reposição das peças (caso tenha adquirido o jogo e precise fazer a reposição de algum componente, você pode entrar em contato com o SAC da MeepleBR através do e-mail atendimento@meeplebr.com).

O ocorrido trouxe a baila uma série de questionamentos sobre a opção da empresa em produzir uma parte dos componentes do jogo no Brasil.

Acreditamos que para que essa seja uma discussão madura e saudável, são necessárias informações a respeito da condição dada aos fabricantes de componentes para jogos no Brasil.

Com esse intuito, convidamos o Eric Deshoulieres, diretor do grupo Ludens, para falar a respeito desse processo produtivo. O grupo Ludens atua no mercado de jogos e objetos recreativos desde 2004, sendo responsável pela fabricação de componentes em diversos jogos produzidos no Brasil como Grasse, Dogs e o próprio Maracaibo.

Seja bem vindo ao nosso blog, Eric. Como já é praxe nas nossas entrevistas, poderia se apresentar para nossos leitores e leitoras?

Salve para todos! Sou de origem francesa, vim morar em 2002 no Brasil. Depois de 2 anos de preparo, criei, em 2006, a Ludens Spirit, lançando uma linha de jogos tradicionais (livres de direitos autorais). Logo em seguida os negócios me levaram a atuar no fornecimento de jogos de tabuleiro para a área da educação.
Ao longo desses 14 anos, criou-se o grupo Ludens com 3 entidades:
– A Ludens Spirit que é editora de jogos, de concepção própria ou em parceria com game designers.

– A Ludeka que é uma loja online de componentes e jogos em geral.

– A LudensLab que é a fábrica responsável pelas produções das linhas Ludens Spirit, Ludeka e para terceiros. A LudensLab se especializou também nas produções de protótipos e pequenas séries.

Atualmente, quantas pessoas o grupo Ludens emprega? Quais profissionais trabalham na empresa

Atualmente estamos em 25, estávamos em 54 no início do ano para suprir a forte demanda nos mercados de board game e educacional

Muitos fãs de jogos de tabuleiro acreditam que a fabricação de componentes no Brasil possui um custo menor. Eles estão corretos?

Não sei como foi criada esta opinião. Com a flutuação cambial é ainda mais difícil seguir parâmetros de comparação. Atualmente o Euro está bem acima dos 6 reais, o que cria uma oportunidade para tentar exportar. A Ludens Spirit já exportou em 2007 e 2008, mas a crise financeira atrapalhou nossos parceiros importadores.

Pelo que eu já consegui comparar, para componentes de plástico simples, nosso custo é maior, devido principalmente à matéria prima que é indexada ao dólar. Para componentes de madeira, estamos quase empatados, mas isso é devido ao nosso câmbio favorável. Para componentes de gráfica, é difícil comparar, pois teria que conhecer a quantidade impressa e geralmente é bem maior que no Brasil, por isso se torna mais barato lá fora.

O que encarece a produção nacional? Quais as dificuldades enfrentadas pelos fabricantes brasileiros?

Acredito que vale a pena tentar um comparativo com a China.

De prontidão diria que a China ainda tem um custo inferior de produção, é só olhar os preços de venda dos componentes no Alibaba para comparar com os do Brasil. Em comparação com a China, o Brasil tem um custo salarial bem próximo: estou comparando o salário mínimo de Pequim, aproximadamente US$ 300, com o salário mínimo da nossa categoria profissional, cerca de R$ 1.350 em 2018, e as taxas acrescentadas ao salário são de 37% (bem parecido com as da nossa empresa). Onde a China consegue superar nosso custos são nas matérias primas, no custo da energia e do transporte.

Outro ponto forte é uma alta produtividade devido à formação profissional e um tempo de trabalho anual maior. Podemos complementar que o nível de educação e de assiduidade do povo chinês ajudam a manter a qualidade em nível muito elevado em relação ao Brasil.

Mas um dos pontos que eu considero mais cruciais é o fácil acesso à tecnologia de máquinas. Hoje no Brasil, não se fabrica mais máquinas de Corte Vinco com alta pressão, capazes de cortar perfeitamente um punchboard de 60 tokens ou até um Quebra-Cabeça (Puzzle) de 1.000 peças. É preciso realizar várias entradas de máquina e ter um operador bem experiente. Existem pouquíssimas máquinas desse tipo no Brasil e geralmente não terceirizam serviços de corte, pois garantem a eles uma vantagem concorrencial. Mesma coisa para produção de cartas com máquinas de corte e separação, o maquinário é obsoleto e hoje com a situação cambial é muito difícil importar essas máquinas.

Em relação às miniaturas de plástico cheias de detalhes, que todo boardgamer adora, é um atraso gigante que o Brasil tem em relação à China. Temos sim bons, mas caros, modeladores de miniaturas em 3D, depois vem a fase da criação dos moldes para injeção e, simplesmente, não temos acesso a esta tecnologia que seria caríssima, desenvolver ou até importar para o Brasil.

Enfim, para acabar com todas essas desculpas de não poder investir, a simples lei da oferta e da demanda não permite que um empreendedor faça investimentos altíssimos em maquinário e em formação profissional para um mercado que ainda não passou do meio milhão de consumidores.

Alguns praticantes do hobby alegam diferenças entre o papel usado no Brasil e o papel usado em fábricas de outros países. Você sabe nos dizer por qual razão isso ocorre?

É verdade que existem algumas qualidades de papéis que o Brasil não fabrica porque a demanda não justifica. Para isso você deve importar uma grande quantidade.

Conheço um fabricante de cartas que importa o papel dele da Alemanha, apenas para fabricação de baralhos comuns. Estou falando de dezenas de toneladas de papel armazenadas para suprir mais de um ano de produção. Este fabricante atua há anos no mesmo mercado com o mesmo produto e por isso consegue imobilizar uma grande quantia de dinheiro neste estoque.

A coisa mais estranha no mercado de papel é que o Brasil é o maior exportador de celulose do mundo e não consegue ser líder na fabricação dos papéis especiais. Ainda devemos considerar o problema do tamanho do mercado e o difícil acesso à tecnologia, pelas complexidades das máquinas e seus custos.

Ocorreram alguns problemas com a edição nacional de Maracaibo. O quão normal são esses defeitos de fabricação?

Sinto muito pelos problemas que enfrentaram, sei o quanto, como editora, isso pode afetar nossos clientes… alguns são compreensíveis e entendem que erros de produção acontecem(tanto no Brasil quanto lá fora), outros adotam uma postura intransigentes, infelizmente.

Somos todos consumidores, pouquíssimos entendem os desafios industriais e ainda menos pisaram em uma fábrica na vida real.

Fabricar um jogo não é imprimir um panfleto! Muitos acham que qualquer gráfica pode fazer um jogo, mas não é assim. Cartas requerem um tipo de maquinário com corte especial, um tratamento de papel com verniz especial, um capricho extremo na calibração das cores e no final um trabalho manual de separação.

Qualidade de papel ou de papelão pode parecer boa na hora que você começa a colar um com outro, mas e somente depois do Corte Vinco que você percebe que a umidade do ar ou o excesso de calor prejudicaram a colagem ou o miolo do papelão.

Não é sempre, mas infelizmente devo confessar que há 5 anos que fabricamos board games e em média conhecemos um problema sério por ano. Uma vez as caixas saíram perfeitas da nossa fábrica, e 2 semanas depois a cola começou a soltar, não tínhamos como perceber isso, no final entendemos que foi um defeito de produção da cola. Outra vez foi a qualidade do papelão, outra vez o Corte Vinco que não foi bem ajustado, etc…

O controle de qualidade parece ser uma parte essencial do processo. Poderia explicar como ele é feito?

Esta é a formação mais difícil a ser realizada, qualidade não se cria, ela se produz!

Na nossa empresa não temos um departamento de qualidade, apenas duas pessoas estão encarregadas, além das funções delas, de acompanhar as reclamações e de rastrear os defeitos dos terceiros ou dos operários.

O controle de qualidade é feito diretamente pelo operário que têm em média 5 anos de trabalho na nossa empresa e temos um chefe de produção que supervisiona as diversas operações, pois cada projeto recebe recomendações diferentes (temos fichas técnicas elaboradas para cada produto de mais de 300 unidades, elaboradas pelo departamento de orçamento). Os operários devem conhecer os procedimentos elaborados ao longo de 14 anos.

O ideal seria que os operários sejam também jogadores de board game, para eles serem ainda mais sensíveis e exigentes em relação ao produto, mas isso é uma outra história 😉

Você acredita que existe certa desconfiança em relação a produção de jogos no Brasil? Se sim, como é possível mudar isso?

Existe sim uma certa desconfiança à produção no Brasil, porque, desde que o hobby iniciou-se no Brasil, há cerca de 6 anos, os consumidores comparavam níveis de produções já dominadas há duas décadas lá fora com a do Brasil que era inexistente. Em relação aos produtos existentes no mercado brasileiro, o consumidor não precisava de uma caixa rígida, o micro ondulado era suficiente, certos acabamentos como gofragem ou verniz localizado, simplesmente não faziam sentidos, componentes de plástico eram totalmente aceitos e não se falava de madeira, etc… O que fazia sentido era apenas o preço e uma oferta de jogos simples.

Por isso, quando começaram as produções nacionais de board games, as fábricas tiveram que aprender e fazer com o que elas tinham e com tudo que já falei anteriormente em relação ao tamanho do mercado, ao custo de investimento e à formação profissional, não era possível produzir a mesma qualidade dos outros países.

Se hoje consideramos que a fabricação de jogos de tabuleiros nem tem uma década de experiência mas deve fornecer produtos com uma exigência de qualidade que equivale a 25 anos, temos muitos esforços para fazer ainda, e como empreendedor só vejo a possibilidade de investir através do crescimento da demanda. Por isso apoiamos e participamos de muitos eventos por todo o Brasil.

Acredito que, infelizmente, somos irregulares nas nossas produções, já experimentei desastres de produção, porque o controle de qualidade foi insuficiente, eu já fui responsável por produções erradas, porque não instrui corretamente o operário, outras vezes o operário não percebeu que ele estava errando (mesmo com as devidas instruções), outras vezes sofremos com condições climáticas extremas (enchentes, forte calor que prejudicava as colas, por exemplo), recentemente tivemos a situação da pandemia que nos obrigou a afastar operários experientes de grupo de risco, substituídos por operários menos experientes e tivemos que trabalhar com 2 times (um de manhã, outro a tarde) o que dificultava a comunicação dos trabalhos a serem efetuados, etc.

Passar por essas dificuldades, abala o desejo de fazer o melhor possível e o parâmetro financeiro pode também definir se devemos continuar tentando ou não. Acredito que no que já foi feito nesses últimos anos já é de se orgulhar, mas não o suficiente para cantar vitória. Vale ressaltar que muitos jogos produzidos no Brasil tem nível de acabamento tão bom como lá fora, não sou eu que falo, são consumidores que escrevam isso nas redes sociais.

Márcio Botelho

Raça: Humano. Alinhamento: caótico e bom. Classes: Historiador 6, Crítico literário 4 e Nerd 10. Animado com as novidades sobre o Paper Dungeons.

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